sexta-feira, 16 de outubro de 2015

 

Tragédia ou privilégio do pequeno Aylan Kurdi?


Aylan Kurdi, encontrado morto numa praia da Turquia, ao tentar fugir com sua família do estado caótico em que se encontra seu país (Nilufer Demir/Reuters)
Autêntica ou artificialmente, a figura do menino sírio Aylan Kurdi – encontrado morto numa praia da Turquia, ao tentar fugir com sua família do estado caótico em que se encontra seu país – repercutiu em todos os meios de comunicação.
Quem possuir algum sentimento de alma, não pode ter ficado impassível ante sua imagem, debruço e a cabeça enterrada na areia, nem ao drama de sua família e de todas as populações que se encontram em situação análoga.
As atitudes e opiniões a propósito do triste acontecimento se dividiram. Muitos foram inculpados, especialmente os países ricos, acusados de falta de senso humanitário por dificultarem o acolhimento de pessoas atingidas por tamanha tragédia.
No entanto, acho que não foi essa a verdadeira causa do ocorrido. Pretendo expor aqui outras considerações que povoaram então a minha mente. E elas dizem respeito ao fato de que, no volumoso noticiário sobre a morte do menino, não pude saber que religião professava os seus pais.
De acordo com os ensinamentos da Santa Igreja Católica, religião que professo com todas as veras de minha alma, esse garoto salvou a sua alma. Nossa fé ensina que, salvo raríssimas exceções, só atingimos a idade da razão por volta dos sete anos. Antes disto não somos responsáveis pelos nossos atos, incapazes, portanto, de ofender gravemente a Deus.
Aylan kurdi ao morrer tinha três anos de idade.  Caso ele tenha sido validamente batizado, sua alma está diante da Santíssima Trindade, dos Anjos e dos bem-aventurados por toda a eternidade. Sabe-se bem o que é isso? Milhões e milhões de anos numa felicidade plena, sem nunca acabar, pois é eterna!
Caso ele não tenha sido batizado, onde estará a sua alma inocente? Deixo o problema aos teólogos. Segundo sempre aprendemos, estaria no Limbo, isto é, usufruindo de uma felicidade natural em sua plenitude. O certo é que perdido ele não está.
Claro que gostaríamos que Aylan vivesse por muitos e muitos anos, e chegasse a um auge de perfeição desejada pela Divina Providência. E depois, com a alma na amizade de Deus, ganhasse o céu por toda a eternidade. Devido às circunstâncias da impiedade hodierna, pergunto apenas se esse menino não acabou ganhando, pois Deus Nosso Senhor tem suas vias, e quão misteriosas elas são.
Aylan kurdi morreu tragicamente, mas expirou inocente. Que ele rogue à Virgem Santíssima e ao Seu Divino Filho que nos abençoem e protejam, e vele por nossos filhos e nossas famílias, a fim de que nós, que ainda habitamos neste vale de lágrimas, não caiamos em tamanha desgraça.
  Sobre Sergio Bertoli


Católico, professor, jornalista, discípulo do Prof. Plínio Corrêa de Oliveira.
Foto junto a Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima que chorou em New Orleans USA - 1992. Em despedida rumo aquele país no aeroporto de Guarulhos 7/10/2015.

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quarta-feira, 15 de abril de 2015

Quando os cães precisam apontar a presença real de Jesus Cristo


Quando os cães precisam apontar a presença real de Jesus Cristo
Sergio Bertoli (*)
           O que entendemos por milagre na doutrina da Igreja Católica, Apostólica, Romana? – Trata-se de um fato, ou melhor, de um acontecimento que contraria as leis da natureza. Nosso Senhor Jesus Cristo realizou incontáveis milagres, sendo o da própria ressurreição o maior de todos, pois se não tivesse ressuscitado nossa fé seria vã.
Milagre é também um dos aspectos da vida dos Santos e uma confirmação marcante da veracidade da Igreja, que na sua sabedoria e prudência foi sempre muito cautelosa na comprovação de um milagre. Exemplo disso ocorre em Lourdes, na França, onde de 1858 até hoje houve incontáveis milagres operados, embora os reconhecidos pela Igreja ainda não cheguem a setenta.
A Igreja sempre incentivou os fieis a fortalecerem sua fé admirando e contemplando os milagres. Por exemplo, há muitos deles relativos à Presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo na Hóstia consagrada. Talvez o mais conhecido seja o de Lanciano, Itália. No sitewww.americaneedsfatima.org consta a narrativa de um milagre eucarístico relativamente recente, digna de figurar na Legende dorée ou nos Fioretti de São Francisco de Assis.
No último dia da estadia de João Paulo II aos EUA, em 1995, ele visitou em Baltimore o seminário de Santa Maria. Quis também fazer uma visita não programada à capela do Santíssimo Sacramento. Sentindo os responsáveis pela sua segurança a necessidade de uma ágil tomada de precauções, puseram-se a percorrer as salas e demais dependências com cães farejadores, utilizados em desabamentos de prédios e catástrofes naturais.
O objetivo era localizar eventuais pessoas escondidas no local com intenções escusas. Os cães esquadrinharam a Capela e nada encontraram. Farejaram também o altar do Santíssimo Sacramento, e não encontraram ninguém. Quando chegaram diante do Sacrário, pararam e olharam fixamente, como procedem quando há alguém entre os escombros.
Com os olhares fixos no Sacrário, cheiravam, grunhiam e se recusavam a sair do local, apresentando todas as características de estar ali uma pessoa escondida. Na verdade, não havia ninguém, exceto no interior do tabernáculo, onde estava realmente o verdadeiro corpo, sangue, alma e divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Os cães só se retiraram depois de receber ordens dos seus responsáveis.
Inteirei-me do acontecimento apenas agora, ou seja, 20 anos depois, apesar da rapidez sideral dos meios de comunicação de nossos dias. Com efeito, tamanha é a indiferença das pessoas de hoje em relação ao sobrenatural e à Religião, que Deus Se serviu desses cães para lhes dar uma lição de credulidade. Se estivéssemos nos tempos medievais, tal acontecimento seria certamente imortalizado em maravilhosos vitrais de várias de suas imponentes catedrais.
(*) Sergio Bertoli é jornalista e colaborador da ABIM
Fonte: Agência Boa Imprensa – (ABIM)

domingo, 2 de novembro de 2014

Infinitas graças vos damos, soberana Rainha!

11-12-2013
Infinitas graças vos damos, soberana Rainha!
Sergio Bertoli
Razões de trabalho me levaram recentemente a Salvador. À tardinha, depois da tarefa cumprida, um colega soteropolitano me convidou para um giro a pé pelo centro histórico da encantadora cidade. Bahia, nome evocativo de tanta história para nós brasileiros.
Seguindo o roteiro proposto por Gabriel – nome do colega de trabalho – pude observar, enlevado, muitos aspectos pitorescos e belos da cidade como o Relógio de São Pedro, a Piedade, o Mercado Modelo, o Pelourinho, entre outros.
O horário parecia não favorecer muito, pois as igrejas históricas já se encontravam fechadas. Caminhávamos num ritmo bem baiano, sem pressa, para poder admirar as fachadas dos prédios com suas sacadas e seu colorido ressaltado pela iluminação.
Não faltavam turistas, em sua maioria bebericando algo nas calçadas defronte a restaurantes e bares ao longo das ruas e praças. Pude admirar, apenas por fora, a Igreja de São Francisco e a da Ordem Terceira. Muita coisa do que via me era familiar uma vez que, virtualmente, não apenas conhecia, mas já havia lido a respeito.
Pude tirar a limpo, por exemplo, uma curiosidade sobre a fachada da Ordem Terceira, hoje com todos os detalhes externos originais. Em épocas mais remotas foi coberta com reboco, dado que muitas esculturas ali presentes são repletas de símbolos. Quem estudou a grande a gesta de Dom Vital no Brasil, não poderia deixar de rememorar a razão deles nas ordens terceiras.
Aquela região é denominada Pelourinho, local onde os escravos recebiam castigo. Ali se encontra a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Até um restaurante-escola do SENAC. Mais ao longe, víamos as igrejas de Santa Bárbara, do Carmo e da sua Ordem Terceira.
Depois de caminhada tão agradável quanto instrutiva, íamos descendo a ladeira a fim de tomarmos um táxi. Mais uma igreja em nosso caminho, a de Nossa Senhora do Rosário do Homem Preto que, para nossa alegria, encontrava-se aberta. Entramos com sofreguidão. Vozes varonis recitavam as orações do Terço.
Pelo que fomos informados tratava-se do “Terço dos homens” em sua 59ª edição... A ascendência italiana falou mais alto dentro de mim. Confesso que me emocionei. Não tive dúvida, tirei meu terço do bolso e ajoelhei-me. Uma simpática pessoa na frente fez-me um sinal para que eu me associasse a eles.
Na verdade, o que eu desejava mesmo naquele momento não era propriamente rezar, mas, na quietude, admirar aquela luminosa cena. Ao contrário de orações lentas e langorosas, ouvia vozes másculas, altas, quase proclamadas a louvar a Virgem Santíssima.
Encerrado o Terço, veio um cântico seguido de uma consagração dos presentes a Nossa Senhora. A voz deles era grave e forte, além de muito afinada. Sensibilizei-me ao ver e ouvir aqueles senhores recitarem "Infinitas graças vos damos, soberana Rainha"...
Não importa a raça, todos nós temos a Virgem Branca do Rosário por Rainha, mas ali havia algo mais... Havia o charme negro da Bahia de Todos os Santos. Seguindo uma tradição deles, fui até convidado a dizer algumas palavras. Vi-os de frente. Quase todos em traje social. Nenhuma bermuda, camiseta e chinelos.
Fomos convidados para um lanche. Conversa farta e cheia de atração. Hospitalidade é o que não faltou.
Saí dali pensativo, sempre acompanhado do verboso Gabriel. Preferi tomar uma refeição leve e ir me recolher no Hotel. Perguntei-me muitas vezes onde estavam os negros revoltados que setores da mídia e de certas sacristias procuram realçar.
Confesso ter tido naquele dia uma profunda alegria de alma por sentir-me entre irmãos, pois somos todos filhos do mesmo Pai e da mesma Mãe. Se quiser, sob a invocação de Virgem Santíssima do Santo Rosário do Homem Preto de Salvador.
(*) Sergio Bertoli é jornalista e colaborador da ABIM

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Catolicismo e Contra-Revolução no Brasil dos séculos XIX e XX


Reminiscência

Catolicismo e Contra-Revolução no Brasil dos séculos XIX e XX

Magníficos frutos do autêntico catolicismo no Brasil, baseado nos ensinamentos do Concílio de Trento, revigorado em meio a muitas provações e ataques anticlericais

Sergio Bertoli

     O século XIX foi marcado pelo florescimento do catolicismo ultramontano, que fortaleceu a influência e o prestígio da Santa Igreja. Além de afirmarem as verdades eternas, os católicos se opunham decididamente aos inimigos da fé.

      Inspirado nos perversos ideais da Revolução Francesa, expandia-se na época o chamado liberalismo católico, o qual pregava a “democratização” da Igreja e o distanciamento em relação à autoridade papal. Os católicos ultramontanos se levantaram então com ufania para defender a autoridade do Sumo Pontífice e a ortodoxia, gerando ao mesmo tempo grande dinamismo nas instituições e movimentos católicos.

Bem-aventurado Papa Pio IX
      Na Europa, esse renouveau teve como figuras proeminentes contra-revolucionários do porte de Donoso Cortes, Joseph de Maistre, De Bonald, São Clemente Maria Hofbauer e, principalmente, o Bem-aventurado Papa Pio IX.

      Muitos outros poderiam ser aqui citados. Catolicismo, na década de 1960, através da pena de seu saudoso colaborador, Prof. Fernando Furquim de Almeida, abordou com maestria a luta ultramontana e contra-revolucionária desenvolvida na Europa durante o século XIX.

     No Brasil, este mesmo combate se travou com enorme vivacidade, envolvendo altas personalidades: a) de um lado, os defensores da fidelidade a um catolicismo genuíno; b) de outro, os propugnadores do dito catolicismo liberal, o “progressismo” da época.

Visão da História sob o prisma católico

     Analisada a História sob o prisma católico, ela não se apresenta como uma sucessão de fatos caóticos e desarticulados entre si, mas sim orientados e influenciados por uma série de fatores naturais e sobrenaturais, que variam de acordo com o momento e a situação histórica. Um desses fatores negativos foi descrito pelo Papa Pio XII como sendo um sutil e misterioso inimigo da Igreja: “Ele se encontra em todo lugar e no meio de todos: sabe ser violento e astuto. Nestes últimos séculos tentou realizar a desagregação intelectual, moral, social, da unidade no organismo misterioso de Cristo”.1

     Foi sob esse prisma que analisamos em nossos artigos anteriores o embate entre forças antagônicas no Brasil, a partir do século XIX, no tocante à educação, ao verdadeiro papel da mulher e em especial à influência da família na boa formação da sociedade.

Provações inerentes a toda obra de apostolado

     D. Antônio Joaquim de Melo, primeiro bispo brasileiro a assumir a diocese de São Paulo, elaborou sólido plano de recuperação do catolicismo autêntico no Brasil, fundamentado nos ensinamentos do Concilio de Trento e nas orientações do Bem-aventurado Papa Pio IX. Entre suas metas principais figurava a constituição de seminários para a formação de um clero instruído e pleno de vida interior. Além disso, o prelado percebia bem quanto valor tinha a instrução católica da juventude, em especial a feminina, que levaria a boa seiva para suas famílias como filhas, irmãs, esposas e mães.
    Praça de Martouret, na cidade de Puy, onde foram mortas as primeiras
 mártires das religiosas de São José de Chambéry 


    O plano do fervoroso bispo constava de uma instrução religiosa e cultural exímia. Exemplo disso foram as seis irmãs de São José de Chambéry, Sabóia (França), enviadas a Itu, no estado de São Paulo. Essa congregação tivera a glória de ser dispersa pela Revolução Francesa e ter suas primeiras mártires executadas na Praça de Martouret, na cidade de Puy, por não aceitarem a constituição civil do clero e as idéias iluministas desse movimento anticristão. A congregação felizmente não sucumbiu, e se reorganizou durante o século XIX.

    A maioria de suas religiosas aqui aportadas era constituída por jovens entre 19 e 30 anos de idade, cuja chegada não deixou de causar, de um lado entusiasmos contagiantes, e de outro provações enormes, o que não é raro nas grandes obras de apostolado.

    Assim, a indicada para superiora – Madre Maria Basília –, logo ao sair da Europa contraiu um resfriado, que se agravou a ponto de levá-la à morte em plena viagem. O Revmo. Pe. Terrier, dirigindo-se ao cardeal Billet, assim descreve o ocorrido: “Apesar da dedicação do médico, o mal se agravou, uma febre violenta a fez perder completamente o conhecimento de tudo, mantendo-a em delírio durante cinco dias. Pela tarde de 26 de julho, depois de ter repetido duas ou três vezes os nomes de Jesus, Maria e José, ela morreu como os justos, chorada por todos e a dois dias da chegada à terra, na altura do Cabo Frio, diante do Brasil onde ela tanto desejava chegar. Ó Eminência, que terrível golpe para nós; mas aos olhos da fé, que linda morte! Era mister uma vítima para atrair as bênçãos celestes sobre o nosso empreendimento: Deus escolheu a mais pura, a melhor preparada, a mais agradável aos seus olhos.

“Como não se podia conservar a bordo um cadáver além de 12 horas, foi preciso proceder-se à sua imersão, na madrugada seguinte. A cerimônia foi realizada com a maior solenidade possível. Celebrei a missa de corpo presente, e, bem assim, o Revmo. cônego Goud e o padre capuchinho: todos os católicos de bordo assistiram ao Santo Sacrifício. Findo este, o corpo, revestido do seu habito religioso, foi transportado para o convés e aí se cantou a Absolvição em meio dos soluços de todos os assistentes. Depois do último Requiescat in pace, suas Irmãs aproximaram-se para o derradeiro adeus, em seguida lhe ataram aos pés um saco de areia e escorregaram-na suavemente para o mar”.2

Madre Teodora de Voiron
     Deixamos para futuro artigo a narração das peripécias da viagem entre Rio, Santos, São Paulo e Itu. Pode-se bem imaginar as dificuldades sentidas por religiosas ainda muito jovens, vindas de uma sociedade europeia, sendo transportadas em liteiras, carroças e animais do mundo agreste de então. Entretanto, logo no primeiro instante, perceberam a cordialidade e a hospitalidade do brasileiro, características de nosso povo que foram objeto de elogios das religiosas.

     Com a morte de Madre Basília, que superiora escolher? Foi indicada a Madre Maria Teodora de Voiron, de apenas 24 anos. D. Joaquim se opôs: “Mas é uma criança! Uma criança! Que faremos com uma criança?!”

     Com o passar dos dias e observando-a atentamente, ele mudou o seu parecer: “Concluí que sua sensatez, sua discrição e sua prudência triunfariam de todos os obstáculos. Pareceu-me ver nela bom senso e condescendência, qualidades indispensáveis a uma superiora. Tudo me convenceu que ela devia governar”.
Monumento em homenagem à Madre Teodora
     Madre Teodora, escrevendo à sua superiora na Europa, registrou: “O Sr. Bispo acaba de me enviar, por escrito, a confirmação do meu nome para superiora. Nunca senti tão vivamente minha fraqueza e profunda miséria. Minha única esperança está no Divino Salvador. Conto com a assistência de sua graça e com os conselhos de minha boa Mãe”. Logo em seguida acrescenta “Fazem-nos um pouco de guerra: nossa mudança excitou a raiva dos maus; eles não se conformam com a idéia de que a mais rica e bela Igreja, não somente da cidade, mas da Província, passe para mãos estrangeiras. Vêem que nossa obra prospera, que gozamos das simpatias de um grande número e não nos podem perdoar”.

      Madre Teodora enfrentou provações múltiplas: contra a fé, contra a esperança, de desânimo, e muitas outras. Já com mais idade, contava sorrindo que certo dia, quando ainda jovem superiora, foi chamada ao locutório por um senhor de meia idade que, sem mais preâmbulos, exprimiu-lhe profunda admiração por sua brilhante inteligência, seu espírito de iniciativa e demais prendas. Acabou pedindo-a em casamento.

     Agradecendo-lhe a homenagem e os cumprimentos, Madre Teodora explicou-lhe: “Se fosse esse meu ideal, por certo eu não deixaria a França, onde recusei ótimos partidos”.
Esta é usualmente, diga-se de passagem, uma arma dos inimigos da Igreja contra sacerdotes e religiosas. E quantos apostatam! Mas era tal o desinteresse da Madre pelo assunto, que jamais cogitou da identidade do cavalheiro...
              Este prédio, inaugurado em 1867, abrigou o Colégio São Luís
 dos padres jesuítas, em Itu

Oposição dos inimigos da Igreja

     Interessa-nos realçar principalmente aqui em que consistiu a oposição a esta obra por parte de forças anticlericais de então, com seus métodos de ataques explícitos à Igreja. Hoje o lobo mudou de pele, embora tenha conservado e até requintado seu ódio à fé.

      O jornal “A Gazeta de Campinas” publicou, no período de 1878 a 1880, uma série de artigos assinados por um L.L. (morador de Itu), sob o título O conventinho, os jesuítas e o Patrocínio de Itu. Entre sarcasmos, afirma-se nessa série (mantemos a ortografia do original): “Até quando ficaremos expostos aos effeitos funestissimos dessas cazas jesuíticas, que não escrupolizam em dar educação por ‘tais metas’[...]. Dezenas e dezenas de meninas costumam vir educar-se no Patrocínio, seria este cúmplice naqueles desmandos, caso não se viesse pela imprensa, abrir dos olhos aos ingênuos pais de famílias que, na boa fé, são aludidos pelos saltimbancos de roupeta”.
      O alvo prioritário dos ataques eram os jesuítas. As Irmãs de São José também se tornam objeto das investidas, em virtude de sua ligação com os filhos de Santo Inácio. A congregação foi alvo de inúmeras crônicas, às vezes rudes, furibundas, fantasiosas e infundadas.

      Um artigo no mesmo jornal, assinado por Ollem Sopmac — que, se lido na ordem inversa, pode significar Campos Mello — comenta: “Entretanto, a menina de que fallamos, que não teve tempo para estudar nem sequer a historia pátria, nem somente a provincial, sabia de cor inteiramente sem faltar uma linha, um volume inteiro da Historia Sagrada! [...] Nem um só dia deixa de repetir Cathecismo e Historia Sagrada [...], única cousa que se ensina com desvelo é o que lhe chamam religião, e que seria, se não estivesse enxertada das mesmas superstições dos jesuítas. Não vale a pena tão pouca cultura intellectual em troca de tanto fetichismo. [...] Em breve, os observadores conheceram que o beatíssimo começava a ressurgir de suas cinzas. Novas e desconhecidas praticas religiosas appareceram. As festas do mez de Maria de que nunca se fallou em Itu, foram instituídas; as solemnidades da Primeira Comunhão, um verdadeiro melodrama, que deslumbra as mulheres ignorantes e até alguns não muito ignorantes, celebram-se em grande concurso”.3

       Expressões como “fanatizado pelos jesuítas”, “enorme turba de beatos”, “medrosos”, “multiplicaram-se as superstições”, “asqueroso fetichismo” etc., não cessavam de aparecer em tais escritos cheios de fel e anticlericalismo.

Resultado de uma grande obra de apostolado

Madre Teodora às vés-
peras de sua morte
      Madre Teodora foi superiora da congregação por quase 66 anos. Apesar de todas as investidas, a obra foi adiante. A partir daquela semente nasceram numerosos frutos. Só no estado de São Paulo, até 1919, a congregação já mantinha 31 casas sob sua direção.
      De acordo com o registro dos livros de matrículas que se encontra no Colégio Nossa Senhora do Patrocínio, de 1859 a 1919 foram matriculadas 2.275 alunas. Considerando o número de inscritas ano a ano, a tabela fala por si, demonstrando que o prestígio do colégio se mantinha equilibrado no decurso de 60 anos – caso inusitado, se comparado a outras instituições de educação que tentaram se firmar nesse mesmo período.
      A sociedade paulista ficou marcada durante essas décadas pela moralidade católica tradicional. Moralidade esta combatida hoje ao extremo pelos fautores do hedonismo como “sociedade hipócrita, cheia de falso moralismo e tabus” e toda sorte de slogans injustos e superficiais. É a manifestação do mundo com seus ódios, falsos atrativos e falsas máximas, a que se refere São Paulo Apóstolo.
Em próximo artigo pretendemos expor o método e o programa de ensino das Madres de São José de Chambéry, tão amadas e queridas por várias gerações de formandas.
____________
Nota:
1. Alocução à União dos Homens da A. C. Italiana de 12-10-1952 – “Discorsi e Radiomessaggi”, vol XIV p. 359.
2. Uma alma de Fé, Olivia Sebastiana Silva, Ave Maria, São Paulo, 1985, p. 55 e 56.
3. “Educação Feminina numa Instituição total confessional Católica Colégio Nossa Senhora do Patrocínio, Maria Iza Gerth da Cunha. Tese apresentada do Departamento de Historia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de SP (USP), 1999.
Grupo de alunas do Colégio Nossa Senhora do Patrocínio, em Itu


publicado também em –


·  Excelente!!!
A vocação do Brasil sempre será CATÓLICA. A história nos diz!
Gostei muito do artigo. Espero pelo próximo.
Salve Maria,
Carlos Magno
· 
José Silveira Viana
12, novembro, 2011 em 11:09 | #2
A Providência Divina não deixou de cercar de cuidados na formação de uma sã juventude enviando missionários virtuosos, mas, como já era de se esperar os inimigos da Igreja não dormem e hoje quer se banir toda religião do ensino.
· 
Márcio
12, novembro, 2011 em 09:23 | #3
Excelente artigo! Escrevam mais sobre esse assunto. Os jornais já falam o suficiente do fracasso do ensino laical (promovido pelos críticos da educação religiosa): crimes, comportamento anti-social, drogas, sexo, desrespeito, ignorância, etc.

Santa Cruzada por Trân Minh Nhât




Santa Cruzada por Trân Minh Nhât

Sergio Bertoli

Paul Trân Minh Nhât

        Paul Trân Minh Nhât, jovem estudante vietnamita, encontra-se em alguma masmorra do mundo comunista.               Provavelmente ferido pelo efeito dos maus tratos, em especial psicológicos, que são próprios a estes Neros de nossa época.
Qual seu crime?
Seu “compromisso em atividades militantes relacionadas à educação cristã recebida dos seus pais”.
Tran, na véspera de sua prisão, escreveu uma longa carta que parece ser de despedida onde mostra que já esperava uma intervenção da polícia que o seguia e controlava seus movimentos há algum tempo e termina agradecendo a seus pais pela fé que recebeu dos mesmos.
Em 27 de agosto último, ele terminava seus estudos. No final da sua última prova, quando saia da sala, quatro agentes de segurança uniformizados o acompanharam até a porta da universidade e o obrigaram a entrar em um carro que o esperava. Desde este dia, sua família não recebeu nenhuma notificação de detenção.
         Mil considerações gostaria de fazer a propósito deste episódio. Desde a indiferença do mundo para com Tran, até o farisaísmo daqueles radicais que vivem gritando em defesa dos tais direitos do homem, declaração nascida do espírito nefasto da malfadada Revolução Francesa.
        Mas prefiro abordar o assunto sob outro aspecto.
        Acompanhei durante bom tempo um determinado apostolado onde os participantes, que eram rotativos, escreviam as intenções de pedidos de orações.
        No total a maior parte destas intenções tinha um denominador comum, “para que meu marido consiga logo um novo emprego”, “para que minha filha arranje um bom noivo”, “para que eu seja curado de …..”, e por ai seguia…
        Muito raramente apareciam intenções como, “para que Deus Nosso Senhor converta o mundo atual”, “em desagravo ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria pelos pecados cometidos nos dias de hoje”, “Pelo triunfo do Reino de Deus nos corações” etc, etc.
       Quem sou eu para condenar o pedido por uma intenção pessoal dentro de tantas aflições em que passamos no momento presente. O que me impressiona é o egocentrismo predominante no geral do homem contemporâneo.
       Em plena Idade Média, ao saber do sofrimento dos peregrinos católicos na Terra Santa o Bem Aventurado Papa Urbano II convocou uma Cruzada, aliás tão caluniada e execrada nestes séculos de impiedade – tal seria se não fosse assim… “me diga quem criticas que eu te direi quem tu és”.        Participaram desta cruzada Santos, reis, pessoas de alta condição pessoal e porque não, com muito entusiasmo o “petit peuple de Dieu”.
       Tran e todos aqueles que passam por sofrimentos indizíveis, porque exerceram o dom que receberam no santo Crisma, a Fortaleza, bem que mereciam uma Santa Cruzada de orações, de manifestações, de preocupações indignadas daqueles que se honram de serem chamados CRISTÃOS.

Publicado em: http://www.ipco.org.br/home/noticias/santa-cruzada-por-tran-minh-nhat#comments

Rocha
20, setembro, 2011 em 03:08 | #1
Sr. Lorêdo,
Com todo o merecido respeito, parabéns na parte do repúdio à tal “Pitomba”.
Mas não se entende e não se justifica a “comercialização de obras de notórios autores anti-cristãos”. É uma questão de liberdade empresarial: optar somente por obras que realmente edificam a integralidade do leitor e não apenas este ou aquele aspecto da intelectualidade à custa do prejuízo à alma e à moralidade Cristã.
As outras obras… já há outros que as comercializam fartamente; não é um papel Cristão.
Fraternalmente, Paz e Bem, DEUS o ilumine.
19, setembro, 2011 em 12:33 | #2
Prezados amigos,
A revista Pitomba, daqui de São Luís, publicou quadrinhos em que N.S. Jesus Cristo é retratado como ladrão, drogado, libertino e beberrão.
14, setembro, 2011 em 14:12 | #3
E os idiotas ainda dizem que os Estados Unidos perderam a guerra!
Sim, de fato, a grande nação cristã perdeu a guerra, mas não em campo de batalha, e sim por conta da contínua traição de elementos internos.
Os comunas deviam ser mais gratos ao sr. Henry Kissinger, diplomata que assinou o acordo de cessar-fogo, pelo qual, aliás, ganhou o Nobel da Paz.
Aí está a “paz” que os fariseus, comunas e inocentes úteis tanto acalentaram!
Gilmara
14, setembro, 2011 em 11:39 | #4
Rezei por Paul…e rezarei, agradeço ao site por esta oportunidade de saber a verdade, notícias que não são divulgadas, corta meu coração mas me dá oportunidade de rezar por este irmão em Cristo, ao menos isto… que tristeza este comunismo assassino ! e o mundo se cala diante de todo tipo de violação de direito…
Anthony Ferreira
14, setembro, 2011 em 11:36 | #5
Combater com o terço numa mão e a espada na outra!
Rocha
14, setembro, 2011 em 03:31 | #6
Perdão, Altíssimo, com A maiúsculo obviamente.
Rocha
14, setembro, 2011 em 03:30 | #7
DEUS abençoe e proteja Paul Trân Minh Nhât, heroico candidato a mártir (se já não o é).
Que o altíssimo nos fortaleça para igual testemunho, se necessário, e para lutarmos já e sempre pela restauração da Civilização Católica!

O papel da mulher na sociedade cristã


O papel da mulher na sociedade cristã

Sergio Bertoli

A Rainha do Universo, na invocação de Mater Admirabilis,
 é representada como uma humilde fiadeira
Proclamada a República no Brasil, muitos esperavam novos hábitos, novos costumes, novos procedimentos; enfim, nova mentalidade. Em certo sentido foi o que aconteceu; mas em outro sentido, não. 

A chamada República velha manteve na sociedade brasileira, de algum modo até acrescido, um ambiente aristocrático e nobre, muito influenciado pela cultura francesa.

Na vida de família, apesar de defeitos notórios, prezava-se uma formação moral autêntica, influenciada por uma elite católica de escol. Em especial, tinha-se cuidado com a formação e preservação das filhas, adorno indispensável das famílias dignas deste nome.

Como tratamos em artigo anterior, esta elite vinha sendo impulsionada por pessoas do porte de um D. Antonio Joaquim de Melo, fiel seguidor das orientações do Papa Pio IX; de um D. Vital, bispo de Olinda; ou de uma Madre Teodora de Voiron, semeadora de grande obra apostólica. Muitas outras figuras de destaque faziam parte desse rol admirável de católicos autênticos e zelosos.

“A mulher forte, viril, isenta do feminismo moderno”


O dia 13 de dezembro de 1916 foi especialmente festivo. Era a data da formatura de uma turma de moças do Colégio Nossa Senhora do Patrocínio em Itu, cidade do interior paulista. Comoveu o público presente o discurso de uma das privilegiadas formandas, que depois dos habituais cumprimentos às autoridades, aos pais e ao público em geral, narrou um episódio da Roma antiga, do qual tirou uma nobre lição. 

Transcrevemos alguns trechos desse discurso:

“Ao redor de Roma, um sábio arqueólogo ouve ansioso os golpes da picareta. De súbito, no meio da terra úmida encontra uma pedra tumular. O túmulo é de uma senhora. De quem seria? De Clélia, Túlia, Vetúria, Cornélia, célebres mulheres da Roma antiga, cada uma tendo se destacando por uma atitude que deixou marcas na História?

O sábio procura, procura sempre alguma inscrição. A noite já se projetava em largas sombras, quando consegue decifrar este epitáfio: ‘Ela fiou a lã e velou sobre a casa’.

Resumo de uma vida toda. Que geração de heróis saiu, talvez, dessa obscura matrona, cujo nome a posteridade devia ignorar? Ó mulher, dize-nos o segredo de tua existência! Ensina-nos onde se acha a sabedoria: a quem devemos dar razão? À antiga matrona fiando em sua casa, ou à Eva moderna, ávida de ostentação, de glória, de emancipação, de direitos iguais aos do homem?

A primeira impressão foi de um sentimento de revolta contra a obscuridade a que fora condenada aquela existência. Fiou a lã e velou sobre a casa. Aparenta-se não haver nisto nem muito mérito, nem muita virtude.

Reflexões mais profundas revelam coisa diversa. Esta mulher cumpriu verdadeiramente o seu destino, legando à posteridade o exemplo da mais alta sabedoria. O lar é o lugar que mais convém à mulher. Não é ela a alma da família, o centro ao redor do qual gravitam todas as afeições? Esposo e filhos querem vê-la ali no meio deles, a toda hora, como um farol luminoso, com uma misericordiosa providência, para indicar-lhes o dever, ensinar-lhes a virtude, consolá-los nas tristezas, compartilhar as alegrias. Sim, mais que da matrona pagã, o lar é o lugar da cristã. Este foi o lugar de Maria. E Maria, Mãe de Deus, não é a mais augusta, a mais gloriosa, a mais santa de todas as mulheres?

Pais, vossas filhas serão no porvir a vossa glória, o vosso conforto, compendiando em toda a sua vida as imortais palavras descobertas pelo arqueólogo, resumindo essas virtudes que farão a mulher forte, viril, isenta do feminismo moderno, fiel, dedicada até o heroísmo no cumprimento do dever. Nossas educadoras nos fazem cotidianamente haurir, na fonte da ciência literário-artística, a verdadeira e sólida educação cristã. Ufano-me em dizê-lo, é um laboratório aquecido ao lume da fé robusta, onde se formaram nossas diletas mães e essas legiões de senhoras que na família, na sociedade cristã, brilham quais jóias preciosas, preparadas com o mesmo carinho e esmero com que nos preparam hoje para tesouro do futuro”.*

Feminismo: o que demônio promete mas não dá


O lar é o lugar que mais convém à mulher.
Não é ela a alma da família, o centro ao redor
do qual gravitam todas as afeições?
Outros tempos, outros costumes, outra vida. A doutrina católica tradicional estava na dianteira da formação dessa mentalidade. Nenhuma instituição dignificou mais a mulher do que a Igreja. A situação do sexo feminino no mundo antigo era inteiramente diversa da atitude que se passou a tomar em relação à mulher na civilização cristã: No paganismo, ela era quase uma escrava; a santa Igreja esculpiu na prática o que Deus Nosso Senhor traçou como modelo da mulher ideal.

Inúmeras são as mulheres que a Igreja apresenta como exemplos ao longo da História, formadas segundo seus veneráveis princípios: Santa Helena, Santa Clotilde, Santa Isabel da Hungria, Isabel a Católica, Branca de Castela, Santa Teresa de Ávila, mais recentemente Santa Teresinha, e quantas outras.

Que reações provocará este artigo em mentalidades imbuídas do ambiente mundano, tão condenado pelo Apóstolo das Gentes? Fúrias, indignações, ironias? Cansamo-nos de ouvir expressões como estas: “Isto é machismo”; “a mulher tem que desfrutar sua independência”; “não sirvo para ser doméstica”, e quantas coisas mais...

Como se costuma dizer, o demônio não dá o que promete. Quantas lamentações ouvem-se hoje em dia de mães que, além de cumprir todas as tarefas do lar, têm que executar algum trabalho profissional que decidiram assumir, ou a isso viram-se obrigadas! Quantos lares desfeitos! Como diz um provérbio: “Expulsai o que é natural, e ele voltará a galope”.

Se é certo, como dizem numerosas profecias particulares, que este mundo não se libertará de sua situação anticristã e neopagã, a não ser por meio de uma intervenção especial da Providência Divina, peçamos essa pronta interferência para que seja restaurado o papel fundamental, e quão grandioso, da mulher na sociedade, a exemplo da Santíssima Virgem, Mãe de todas as mães.

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Nota:
* - Ivan A . Manoel, A Igreja e a educação feminina (1859-1919), Editora da Universidade Estadual Paulista (UNESP), São Paulo, 1996, pp. 13 e 14

Publicado em: http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/AB674788-3048-313C-2E42BC3D82871C31/mes/Mar%C3%A7o2011 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Brasil Tradicional

Brasil Tradicional

D. Antonio Joaquim de Melo — o sétimo bispo de São Paulo, antiliberal, era obediente e fiel seguidor de Pio IX
Bem-aventurado Papa Pio IX
D. Vital Maria Gonçalves de Oliveira, frade capuchinho e futuro arcebispo de Olinda e Recife. Presente em Itu, ele orientava e atendia as irmãs de São José de Chambéry.
Revivescência católica em São Paulo no século XIX
Seguindo diretrizes do bem-aventurado Pio IX, D. Antonio Joaquim de Melo iniciou grandiosa obra de educação cristã da juventude paulista, a qual perdurou por mais de um século

Sergio Bertoli

— Tá, Pá Titá.
Inocente, a orfanzinha de quatro anos, com linguagem ainda bastante atrapalhada, aproxima-se do novo bispo e lhe oferece um alfinete, com a ponta voltada para ele. O que queriam dizer aquelas palavras?

— Tome, padre Vital.

Impressionado, o sacerdote volta-se para Madre Teodora de Voiron e diz:

— Sabe, minha Madre, que muitas vezes Deus se serve dos inocentes para nos manifestar seus desígnios?

Pouco tempo antes, após a bênção vespertina do Santíssimo Sacramento, o religioso permanecera por longo tempo prostrado aos pés do altar. Quando saía dali, Madre Teodora notou-lhe o congestionamento do rosto coberto de lágrimas. Perguntou-lhe sobre sua saúde, e por resposta tomou conhecimento da revelação que ele acabara de ter sobre os terríveis sofrimentos que o aguardavam, e que o haviam aterrado. Madre Teodora pôde testemunhar depois os tormentos que lhe foram infligidos.

O religioso era o jovem frade capuchinho e futuro arcebispo de Olinda e Recife, o grande D. Vital Maria Gonçalves de Oliveira. Presente em Itu, ele orientava e atendia as irmãs de São José de Chambéry, do Colégio do Patrocínio dessa cidade paulista. Poucos anos antes elas tinham iniciado a grande obra de educação das moças da elite paulista. Não só da elite, mas também de orfanzinhas entre as quais estava a do episódio do alfinete.

Providencial retorno do capuchinho ao Brasil

Frei Vital havia recebido o hábito de São Francisco no convento dos capuchinhos em Versalhes, na França. De saúde muito frágil, que se ressentira com os rigores do clima europeu, seus superiores enviaram-no de volta à Terra de Santa Cruz, seu querido Brasil.

As irmãs do Colégio do Patrocínio de Itu haviam perdido pouco antes seu capelão, Pe. Goud. Madre Teodora, movida por zelo apostólico, afligia-se com a falta dos socorros espirituais, tão necessários à comunidade religiosa e às alunas do Colégio do Patrocínio. Alma com profunda vida interior, ela sabia que, sem a graça de Deus, todo trabalho de formação e apostolado seria em vão.

As freiras recebiam assistência espiritual dos capuchinhos de São Paulo. De 15 em 15 dias, um deles chegava àquele local depois de viajar por 12 horas a fio, ora durante a noite iluminada pelo luar, ora sob o aguaceiro de tormentosas tempestades. O religioso passava o dia atendendo confissões, aconselhando, distribuindo a Sagrada Eucaristia, para no final da tarde voltar a São Paulo no dorso de um animal, onde continuava sua tarefa de educação. Desta forma, o grande defensor da fé esteve providencialmente presente na origem desta magnífica obra — o Colégio do Patrocínio de Itu.

Recristianização da sociedade contra o catolicismo liberal

Foram apenas Frei Vital e Madre Teodora de Voiron os autores dessa grande obra?

Não. A história contada nos bancos escolares freqüentemente omite nomes de valorosas figuras. Propositadamente? O tempo — ou talvez só no Juízo Universal — no-lo dirá. Como se chamavam esses heróis anônimos que escreveram magníficos episódios do Brasil real e autêntico, e que tantos frutos benéficos deixaram para a formação de numerosas almas de escol nesta nossa querida e sofrida Pátria?

A autêntica obra educativa católica no País está diretamente ligada ao surto da reação contra-revolucionária do bem-aventurado Papa Pio IX. Antes dele, o iluminismo, o enciclopedismo e a Revolução Francesa disseminaram o anticlericalismo e o ódio contra a Santa Igreja, tomando proporções nunca vistas. Pio IX discerniu a necessidade de um novo programa universal de recristianização da sociedade, proclamando dogmas, reafirmando verdades eternas.


O Padre Diogo Feijó (à dir.) influenciado pelas idéias do Marquês de Pombal, como boa parte do clero brasileiro, defendia uma reforma “progressista” na Igreja na época
Infelizmente o clero brasileiro estava imbuído da influência nefasta do Marquês de Pombal e da sua política anticatólica. Os "progressistas" da época, artífices no Brasil da política do catolicismo liberal, eram padres como Joaquim Manoel Gonçalves de Andrade, Sebastião Pinto do Rego (futuro bispo), Cônego Ildefonso Xavier Ferreira, Padre Manoel Joaquim do Amaral Gurgel, e na vanguarda destes o Padre Diogo Feijó. Queriam eles a "modernização" e a emancipação da Igreja Católica no Brasil em relação à orientação doutrinária de Roma. Parte desse clero, denominado "pombalino", estava engajada numa atividade política revolucionária e ocupava cargos como, por exemplo, de deputado provincial, diretor de faculdade e presidente da Província de São Paulo.

Foram esses padres "modernistas" que se opuseram à obra reformadora do clero e da educação levada a cabo pelo valoroso D. Antonio Joaquim de Melo — o sétimo bispo de São Paulo, mas o primeiro nascido no Brasil — que ocupou a Sé paulista entre 1851 e 1861. Anti-liberal, com verdadeira vocação de pastor, era obediente e fiel seguidor de Pio IX. Projetava para sua diocese o início de uma obra monumental que perduraria por mais de um século: a educação cristã da juventude, e como conseqüência a da sociedade. Seu grande projeto orientava decididamente a atividade pastoral no sentido contrário à tendência do "clero pombalino".

Primazia na formação da juventude

D. Antonio decidira-se pela vida religiosa aos 19 anos, e em 1814 foi ordenado sacerdote. Tornou-se bispo de São Paulo em 1851, aos 60 anos de idade, por indicação de D. Pedro II. Seguindo as metas universais do bem-aventurado Pio IX, atraiu para São Paulo os padres capuchinhos. As irmãs de São José de Chambéry, da Sabóia (França), foram convidadas para fundar o Colégio do Patrocínio em Itu. A liderança das irmãs ficou a cargo de uma alma de escol, Madre Maria Teodora de Voiron (hoje Venerável), fundadora da Província Brasileira das irmãs de São José.

Apesar da decadência da sociedade daquela época no plano político e nos costumes, os patriarcas da elite paulista desejavam ainda uma boa formação moral para suas filhas, e aqueles religiosos vieram ao encontro dessas aspirações. Surgiram então os famosos internatos, em especial para moças. Ali se aprendiam línguas, cultura clássica, boas maneiras e todas as virtudes e atividades próprias ao sexo feminino, com base nos princípios e ensinamentos da Igreja. O "movimento feminista", a respeito do qual poderemos tratar em momento apropriado, mal começava a colocar a cabeça de fora.

O Colégio Nossa Senhora do Patrocínio, fundado em 1859 em Itu, tornou-se o início de um processo de irradiação de escolas particulares católicas por todo o estado de São Paulo. De tal forma que em 1959 contavam-se 139 dessas escolas espalhadas pelas mais importantes cidades paulistas.

Desde o início de nossa história o genuíno ensino católico predominou, graças à ação das ordens religiosas. Mas a partir de 1960, especialmente com a difusão mais intensa do chamado progressismo, infelizmente o magistério católico enveredou por outros rumos.

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Obras consultadas:
Olívia Sebastiana Silva, Uma Alma de Fé,  Madre Maria Teodora Voiron, 5ª Edição, Ave Maria Ltda., São Paulo, 1985.
Ivan A. Manoel, Igreja e educação feminina (1859-1919). Uma face do conservadorismo — Editora da Universidade Estadual Paulista, São Paulo, 1996.
Madre Maria Teodora de Voiron (hoje Venerável), fundadora da Província Brasileira das irmãs de São José
Alunas do Colégio Nossa Senhora do Patrocínio, fundado em 1859 em Itu, que se tornou o início de um proces so de irradiação de escolas particulares católicas por todo o estado de São Paulo
Igreja do Patrocínio nos dias de hoje. Nela está sepultada Madre Teodora.
Representação de como era a Igreja do Patrocínio no início.